Numa entrevista exclusiva, Ruzica Duvnjac-Prsa, Marketing Key Account Manager, e Dimitris Kouvaras, Global Training Manager da Bilstein, abordam o portefólio de suspensão premium da empresa, a estreita relação com os fabricantes de veículos, a evolução dos sistemas de suspensão eletrónica e pneumática e a estratégia para reforçar a presença da marca no mercado de pós-venda ibérico.
Revista Automotive: A Bilstein apresentou os seus produtos de uma forma diferente na Automechanika deste ano. Qual foi a razão para esta nova abordagem?
Ruzica Duvnjac-Prsa: Decidimos alterar a forma como apresentámos o nosso portefólio relativamente à edição da Automechanika de há dois anos. Mantivemos as três áreas tradicionais — Off-Road, Replacement e Performance — mas quisemos, desta vez, integrar em cada uma delas a nossa experiência em equipamento original.
O objetivo foi mostrar que a Bilstein não é apenas um fabricante de suspensões para o pós-venda. Temos uma presença industrial global e uma forte capacidade de engenharia, incluindo projetos OE bastante sofisticados. Alguns componentes desenvolvidos para equipamento original não estão disponíveis no pós-venda, mas demonstram o nível tecnológico e de qualidade associado à marca.
A nossa filosofia passa por privilegiar a qualidade, a durabilidade e os testes consistentes, em vez de simplesmente introduzir novos produtos no mercado com a maior rapidez possível.

Qual é a importância do negócio OE para o desenvolvimento dos produtos destinados ao pós-venda?
Dimitris Kouvaras: É extremamente importante. O desenvolvimento de equipamento original proporciona-nos um conhecimento muito profundo da dinâmica dos veículos e da engenharia de suspensão. Um projeto OE é um processo longo e complexo. Normalmente, falamos de mais de dois anos e meio entre o início do desenvolvimento e a chegada do veículo ao mercado.
As nossas equipas de ride and handling trabalham em conjunto com as áreas de construção e engenharia e começam a colaborar com o fabricante vários anos antes de o veículo chegar ao consumidor.
Trabalhamos com grandes fabricantes como Volkswagen, BMW, Jaguar Land Rover, Mercedes-Benz e Hyundai. Estamos também envolvidos em projetos com fabricantes de veículos elétricos, incluindo empresas como Xiaomi e BYD.
O que torna tão complexo o desenvolvimento de um sistema de suspensão?
Dimitris Kouvaras: O principal desafio consiste sempre em encontrar o compromisso adequado. Existem três objetivos fundamentais: conforto, segurança e agilidade.
Se maximizarmos o conforto, normalmente comprometemos a agilidade. Se privilegiarmos a agilidade, podemos comprometer o conforto. E a segurança tem de permanecer no centro de toda a equação. Não existe uma única afinação capaz de proporcionar tudo ao mesmo tempo.
É por isso que os testes são tão importantes. Cada veículo possui características específicas de chassis, distribuição de peso, centro de gravidade e comportamento pretendido. O amortecedor tem de ser desenvolvido em função dessas características.
A eletrificação torna esse desafio ainda maior?
Dimitris Kouvaras: Sem dúvida. Os veículos elétricos introduzem vários desafios. Um dos mais evidentes é o peso. A bateria acrescenta uma quantidade considerável de massa ao veículo, pelo que o amortecedor tem de suportar cargas significativamente superiores.
Existe, contudo, outro aspeto que por vezes é esquecido: o ruído. Um veículo elétrico é extremamente silencioso quando comparado com um veículo convencional. Não existe o ruído do motor de combustão e há também menos ruído proveniente do sistema de escape. Consequentemente, os sons mecânicos da suspensão tornam-se muito mais percetíveis.
Pequenas vibrações que poderiam passar despercebidas num veículo com motor de combustão podem tornar-se bastante evidentes no habitáculo de um elétrico. Por isso, os componentes têm de ser suficientemente robustos para suportar o peso adicional, mas também extremamente refinados no seu funcionamento.

Onde identifica as principais oportunidades tecnológicas para a suspensão?
Dimitris Kouvaras: Sem dúvida, na suspensão de controlo eletrónico. A Bilstein pode não ser o maior fabricante mundial de suspensões em volume de produção, mas é líder global em sistemas de suspensão eletronicamente controlados e molas pneumáticas.
Um amortecedor passivo convencional representa sempre um compromisso, porque as suas características são fixas. Um amortecedor controlado eletronicamente pode adaptar continuamente o seu comportamento às condições da estrada, aos movimentos do veículo e às solicitações do condutor.
Desta forma, conseguimos ultrapassar alguns dos compromissos que tradicionalmente existiam na engenharia de suspensão.
Na prática, o que representa essa tecnologia para o condutor?
Dimitris Kouvaras: O objetivo é manter o pneu em contacto otimizado com a estrada. Um sistema de suspensão de elevada qualidade contribui diretamente para a travagem, aceleração e direção.
Quando o pneu permanece corretamente ligado à superfície da estrada, o veículo pode travar de forma mais eficaz, acelerar de maneira mais eficiente e responder com maior precisão aos movimentos da direção.
Isto torna-se ainda mais importante nos veículos elétricos, devido à combinação entre o aumento de peso e a entrega instantânea de binário.

Automotive Magazine: A Bilstein possui um catálogo pós-venda muito extenso. Qual é atualmente a sua dimensão?
Ruzica Duvnjac-Prsa: A nossa base de dados ativa inclui mais de 10.000 produtos pós-venda. É uma gama muito abrangente, que vai desde veículos clássicos, como o Lada, o Volkswagen Carocha original e o Fiat Panda, até modelos Porsche históricos e veículos elétricos modernos.
Mas sabemos também que existem veículos que ficam fora de um catálogo convencional. Para essas aplicações temos o departamento Special Projects.
Em que consiste esse departamento?
Ruzica Duvnjac-Prsa: Desenvolve amortecedores à medida para aplicações muito específicas. Pode tratar-se de automóveis clássicos, projetos de entusiastas, veículos especialmente preparados ou modelos que necessitam de uma configuração de suspensão completamente individual.
É um bom exemplo de como o conhecimento de engenharia pode ser aplicado para além de um produto convencional de catálogo.
Os testes parecem assumir uma importância particularmente elevada na filosofia da Bilstein.
Dimitris Kouvaras: São absolutamente fundamentais. Investimos muito tempo em testes porque queremos compreender exatamente como um produto se comporta antes de chegar ao cliente.
Os nossos produtos de performance e OE são extensivamente testados no Nürburgring, o famoso “Green Hell”, assim como nas nossas instalações de testes em Papenburg.
O objetivo não é simplesmente tornar um automóvel mais rápido num circuito. Procuramos encontrar o equilíbrio correto entre conforto, agilidade, segurança e durabilidade.
Esta abordagem diferencia a Bilstein de fabricantes mais recentes que estão a entrar no mercado?
Dimitris Kouvaras: Os processos de desenvolvimento podem ser bastante diferentes. O nosso desenvolvimento OE pode ultrapassar dois anos e meio precisamente porque realizamos extensos programas de testes e validação antes de colocar um produto no mercado.
Existem atualmente fabricantes que adotam abordagens diferentes, com ciclos de desenvolvimento mais curtos e utilização do feedback obtido junto dos veículos já em circulação para introduzir melhorias posteriores.
São estratégias diferentes. Nos nossos programas de engenharia, continuamos a atribuir uma importância muito elevada aos testes e à validação antes do lançamento.

Esta questão é particularmente importante quando falamos de frotas?
Dimitris Kouvaras: Sim. Os operadores de frotas têm uma perspetiva muito diferente. Quando uma empresa possui centenas ou milhares de veículos, a fiabilidade e a previsibilidade são fundamentais.
Uma frota de cerca de 1.000 veículos não pode aceitar níveis elevados de incerteza relativamente à fiabilidade ou segurança a longo prazo. O tempo de imobilização, os custos de manutenção e os riscos de segurança têm impacto direto no negócio.
É por isso que processos de engenharia e validação consolidados continuam a ser muito importantes para as frotas profissionais.
**Leia a entrevista completa através deste link: https://www.yumpu.com/pt/document/read/71284468/revista-automotive-n149-setembro/6
























