Uma equipa de investigadores da Fraunhofer-Gesellschaft, organização alemã de pesquisa, desenvolveu uma nova geração de borracha sintética biomimética capaz de superar a borracha natural em resistência ao desgaste, um avanço que poderá ter um impacto significativo no fabrico de pneus para veículos pesados. Esta inovação foi apresentada no salão The Tire Cologne 2026, através de um pneu de teste desenvolvido pela Bisyka Innovation GmbH.
Há mais de um século que a indústria procura melhorar as propriedades da borracha sintética, mas a borracha natural continua a apresentar vantagens importantes, sobretudo no que respeita à resistência ao desgaste. Uma das principais razões está na chamada cristalização induzida por deformação, um fenómeno que ocorre quando a borracha natural é sujeita a esforço mecânico, formando nanocristais que impedem a propagação de microfissuras e aumentam significativamente a durabilidade do material.
Foi precisamente este comportamento que os investigadores alemães conseguiram reproduzir pela primeira vez, numa borracha sintética.

Inspiração na natureza
O projeto começou com o estudo da borracha extraída da planta dente-de-leão, conduzido por especialistas do Fraunhofer IME, que analisaram a composição molecular deste material e identificaram os componentes responsáveis pelas suas propriedades mecânicas.
Com base nesse conhecimento, investigadores do Fraunhofer IAP, em colaboração com um fabricante de catalisadores, desenvolveram um poliisopreno sintético com uma estrutura molecular de elevada pureza. Posteriormente, adicionaram-lhe biomoléculas presentes na borracha natural, conseguindo reproduzir o fenómeno da cristalização induzida por deformação.
“Conseguimos, pela primeira vez a nível mundial, transferir para a borracha sintética as propriedades biológicas únicas da borracha natural”, destacou o professor Dirk Prüfer, responsável pela área de Biopolímeros Vegetais do Fraunhofer IME. Por sua vez, Mario Beiner, diretor científico do projeto no Fraunhofer IMWS, “o objetivo foi desenvolver uma borracha sintética capaz de igualar — e até ultrapassar — a principal vantagem competitiva da borracha natural”.

Menor desgaste e maior eficiência
Os primeiros ensaios revelam resultados muito promissores. De acordo com Ulrich Wendler, responsável pelo projeto no Centro Piloto Fraunhofer para Síntese e Processamento de Polímeros (PAZ), “pneus fabricados com esta nova borracha sintética registam uma perda de massa 30 a 50% inferior à observada em pneus produzidos com borracha natural. Além disso, o desgaste do piso reduz-se para cerca de metade”.
Em testes independentes realizados pelo laboratório alemão Prüflabor Nord, quatro pneus equipados com a nova mistura percorreram cerca de 1.400 voltas de ensaio em circuito. No final, os pneus convencionais em borracha natural perderam aproximadamente 850 gramas de material e 0,94 milímetros de piso, enquanto os pneus desenvolvidos com a tecnologia BISYKA perderam apenas 600 gramas e 0,47 milímetros de piso.
Os investigadores verificaram igualmente uma melhoria na resistência ao rolamento. Enquanto os pneus convencionais obtiveram classificação C, os pneus produzidos com a nova borracha alcançaram a classificação B, traduzindo-se num potencial aumento da eficiência energética.
Alternativa estratégica para a indústria

A inovação ganha especial importância numa altura em que o abastecimento mundial de borracha natural enfrenta riscos crescentes.
A produção depende essencialmente da seringueira (Hevea brasiliensis), cujas plantações estão ameaçadas pelo fungo Microcyclus ulei. Embora a doença tenha devastado sobretudo plantações na América do Sul, uma eventual disseminação para a Ásia — atualmente responsável pela maior parte da produção mundial — poderá colocar em risco o fornecimento desta matéria-prima estratégica.
A nova borracha sintética, designada BISYKA (acrónimo alemão para “borracha sintética biomimética”), poderá assim representar uma alternativa industrial viável, sobretudo para aplicações exigentes como pneus para camiões, onde até agora a borracha natural permanecia praticamente insubstituível.
Outra vantagem apontada pelos investigadores é o facto de o novo material poder ser produzido em escala industrial recorrendo às atuais instalações fabris, sem necessidade de investimentos significativos em novos equipamentos.
A comercialização da tecnologia ficará a cargo da Bisyka Innovation GmbH, que deu a conhecer um pneu demonstrador no seu Innovation Lab durante a realização do The Tire Cologne 2026.
Os investigadores admitem que a formulação ainda continuará a ser otimizada, sobretudo ao nível da composição das biomoléculas incorporadas e da adaptação das misturas de piso para pneus de veículos ligeiros. Paralelamente, procuram parceiros industriais para acelerar a introdução desta inovação no mercado.
Os resultados laboratoriais já se confirmaram em aplicações comerciais, e a tecnologia poderá representar um dos avanços mais relevantes dos últimos anos na área dos materiais para pneus, conjugando maior durabilidade, menor consumo de matérias-primas e maior eficiência energética para o setor dos transportes.




























