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AZuR – o pneu renovado é a solução mais sustentável

25 de Agosto, 2026
in Frotas, Pós-Venda
AZuR – o pneu renovado é a solução mais sustentável

A AZuR Alliance foi fundada na Alemanha com o intuito de ser uma rede colaborativa para a cadeia de valor da reciclagem de pneus. Por ocasião do salão The Tire Cologne, entrevistamos Anna-Maria Guth, responsável pela coordenação da rede.

Revista Automotive: O que é a AZuR Alliance?

Anna-Maria Guth : A AZuR Alliance é uma rede colaborativa que reúne atualmente mais de 80 membros de toda a cadeia de valor da reciclagem de pneus. Dela fazem parte fabricantes de pneus, empresas de recolha, renovadores (antigos recauchutadores), recicladores mecânicos, produtores de granulado de borracha, centros de investigação e universidades que partilham um objetivo comum: promover uma verdadeira economia circular para os pneus.

A visão da organização é simples e ambiciosa: todos os pneus em fim de vida gerados na Europa devem ser reciclados na própria Europa, preservando os materiais no espaço europeu e criando valor para a indústria local.

A AZuR Alliance continua a crescer?

Sim, continuamos a crescer e isso deixa-nos muito satisfeitos. A nossa rede está cada vez mais ampla a nível europeu do que aquela que havia há alguns anos. Neste salão decidimos lançar um projeto europeu dedicado à renovação de pneus em língua inglesa.

Até agora trabalhávamos essencialmente em alemão, porque a maioria dos nossos renovadores é de língua alemã e foram precisamente eles que ajudaram a construir esta rede desde o início. Sempre entendemos que não fazia sentido mudar para uma língua com a qual não se sentissem confortáveis.

No entanto, chegou o momento de criar uma estrutura paralela em inglês para os demais renovadores europeus. Tivemos, por exemplo, um renovador belga presente neste encontro, o que demonstra a necessidade de alargar a rede e reforçar a cooperação internacional.

Atualmente, quais são os principais desafios do setor?

Os desafios variam consoante a área da reciclagem de pneus de que estivermos a falar. No caso da renovação, enfrentamos o mesmo problema praticamente em toda a Europa: a concorrência dos pneus importados de baixo custo provenientes da China e de outros países asiáticos.

Ao mesmo tempo, continuamos a acompanhar as discussões ao nível da União Europeia relacionadas com a taxonomia e outras iniciativas regulamentares, que nem sempre têm sido favoráveis ao setor.

Apesar disso, estamos muito satisfeitos com os mais recentes relatórios sobre o Regulamento do Ecodesign. Pela primeira vez, e ao que parece, a Comissão Europeia compreendeu verdadeiramente o valor ambiental da renovação de pneus.

Agora, a Comissão reconhece que um pneu renovado representa uma das melhores soluções disponíveis em termos de sustentabilidade. Está inclusivamente a ponderar proibir a comercialização, no mercado europeu, de pneus que não possam ser renovados.

Se esta medida avançar, terá um impacto muito positivo, porque também afastará muitos dos pneus de baixo custo que atualmente entram no mercado europeu sem possibilidade de reutilização. Há, portanto, sinais claros de progresso. No entanto, ainda temos um longo caminho a percorrer. Precisamos de aumentar significativamente a venda de pneus renovados e de colocar um maior número destes produtos no mercado. Apesar disso, sentimos que, passo a passo, a situação está a evoluir na direção certa.

E quanto às restantes formas de reciclagem?

Aí enfrentamos outro problema importante. Na Alemanha, por exemplo, continuamos a “perder” demasiados pneus usados. Estimamos que, todos os anos, cerca de 100 mil toneladas de pneus em fim de vida saiam do país sem serem valorizadas localmente.

É frequente sermos contactados por empresas interessadas em comprar pneus usados para exportação. Perguntam-nos simplesmente se temos pneus disponíveis e oferecem-se para pagar por eles. O problema é que esta prática prejudica seriamente a economia circular alemã.

Na Alemanha existem numerosas pequenas e médias empresas perfeitamente capazes de transformar estes pneus em novos produtos de elevado valor acrescentado. Mas, quando a matéria-prima é desviada para exportação porque alguém oferece um preço superior, essas empresas ficam privadas dos materiais de que necessitam para trabalhar.

Na maioria dos casos, esses pneus acabam por ser enviados para países como a Turquia, Paquistão, Índia ou Marrocos, onde são frequentemente utilizados como combustível ou destinados a aplicações de reduzido valor acrescentado.

Do nosso ponto de vista, este não é o caminho que a Europa deveria seguir se pretende desenvolver uma verdadeira economia circular para os pneus em fim de vida.

Na Alemanha existe uma ecotaxa ou um sistema de Responsabilidade Alargada do Produtor (EPR)?

Não. Na Alemanha não existe um sistema de Responsabilidade Alargada do Produtor (EPR) aplicado aos pneus e, por isso, também não existe uma ecotaxa destinada a financiar a sua gestão.

Naturalmente, um sistema desse tipo pode ajudar a financiar determinadas atividades. Basta olhar para outros países europeus onde o EPR já está implementado.

No entanto, quando analisamos os resultados em termos de volumes efetivamente reciclados, verificamos que esses sistemas não apresentam um desempenho superior ao da Alemanha. Pelo contrário, apesar de não existir um regime EPR, a Alemanha continua a ser um dos países europeus que mais pneus recicla. Por isso, a questão não deve centrar-se apenas na forma de financiamento.

Então, qual seria o modelo ideal?

Num cenário ideal, deixaríamos de falar em resíduos e passaríamos a falar exclusivamente em recursos.

Os pneus em fim de vida não devem ser encarados como lixo, mas como uma matéria-prima com valor económico. Se tratarmos este material como um recurso, não faz sentido aplicar uma taxa sobre ele. O essencial é garantir que os materiais reciclados possam ser utilizados sem entraves regulamentares desnecessários.

Há anos que o nosso setor empresarial enfrenta debates relacionados com substâncias como os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH) e outras restrições técnicas. Se conseguirmos ultrapassar estes obstáculos e assegurar que os materiais reciclados podem ser utilizados em diferentes aplicações e comercializados de forma competitiva, o próprio mercado tratará de lhes atribuir valor.

Nesse contexto, não será necessário criar taxas adicionais, porque haverá empresas dispostas a comprar estes materiais. É precisamente por isso que defendemos uma mudança de paradigma: em vez de continuarmos a falar da tradicional “hierarquia dos resíduos”, deveríamos começar a falar numa verdadeira “hierarquia dos recursos”.

Que tipo de apoio recebem atualmente das entidades públicas?

Temos assistido a uma maior atenção por parte das autoridades públicas, o que consideramos bastante positivo.

Por exemplo, existe hoje um maior apoio para promover a utilização de pneus renovados em frotas públicas, como as frotas municipais, os serviços de recolha de resíduos ou outras entidades da administração local. Este tipo de apoio pode revelar-se mais importante do que um simples financiamento direto.

Os membros da AZuR reconhecem que o trabalho desenvolvido pela organização gera benefícios concretos para toda a cadeia de valor. Por isso, o pagamento das quotas da associação faz sentido, desde que o resultado seja efetivamente útil para os associados.

Que outras medidas poderiam reforçar a economia circular dos pneus?

Uma medida fundamental seria permitir que apenas operadores certificados pudessem proceder à recolha de pneus usados. Este é atualmente um dos principais problemas na Alemanha, porque é precisamente nesta fase que muitos pneus acabam por sair do país e da Europa.

Se apenas empresas certificadas pudessem efetuar a recolha, seria possível conhecer com maior rigor os fluxos de pneus em fim de vida e assegurar que estes permanecem disponíveis para valorização na indústria europeia. Além disso, seria desejável uma abordagem mais ambiciosa relativamente à utilização de materiais reciclados.

Hoje, quando se definem metas ambientais para os pneus novos, fala-se frequentemente em aumentar a incorporação de materiais de origem biológica ou reciclados. Contudo, confiar exclusivamente em matérias-primas de origem biológica não constitui uma solução sustentável.

A utilização crescente destes materiais levanta questões relacionadas com a disponibilidade de recursos naturais e até com problemas de desflorestação. Em contrapartida, os materiais reciclados já existem, encontram-se disponíveis na Europa e podem permanecer continuamente no ciclo produtivo.

É precisamente isso que caracteriza uma verdadeira economia circular: manter os materiais em utilização durante o maior período possível, reduzindo a necessidade de recorrer continuamente a novos recursos.

Se a indústria conseguir utilizar cada vez mais materiais reciclados em aplicações de elevado valor acrescentado, e se as políticas públicas apoiarem esse objetivo, será possível reforçar significativamente a competitividade do setor europeu da reciclagem de pneus.

Que papel podem desempenhar os gestores de frotas na promoção da renovação de pneus?

Sem dúvida que os gestores de frotas podem desempenhar um papel importante. Continuamos a defender a utilização de pneus renovados, incluindo no segmento dos pneus para veículos ligeiros (PCR – Passenger Car Radial).

Contudo, existe atualmente uma limitação importante: neste momento, não existe produção de pneus ligeiros renovados na Alemanha.

A situação é semelhante à vivida pela empresa francesa Blackstar, que também enfrenta dificuldades neste mercado. Ainda assim, continuamos otimistas. Um dos nossos associados deverá colocar em funcionamento, ainda este ano, uma unidade totalmente automatizada para a renovação de pneus PCR.

Esperamos que este projeto seja bem-sucedido, porque acreditamos que poderá representar um ponto de viragem para este segmento.

A eletrificação poderá criar oportunidades para os pneus renovados?

Sim. Quando falamos de mobilidade elétrica ou dos novos modelos de distribuição urbana — como os serviços de entrega ao domicílio e outras operações de logística de última milha — existem oportunidades interessantes para a utilização de pneus renovados.

Naturalmente, quando se fala de renovação de pneus, pensa-se sobretudo em pneus para veículos comerciais pesados e autocarros, segmentos onde esta tecnologia já está consolidada e demonstra claras vantagens económicas e ambientais.

No entanto, acreditamos que também os pneus para veículos ligeiros poderão assumir um papel relevante no futuro, sobretudo se conseguirmos ultrapassar os atuais obstáculos industriais e regulamentares.

Referiu, anteriormente, os relatórios europeus sobre o Ecodesign. Porque os considera tão importantes?

Estou particularmente satisfeita com o conteúdo desses relatórios porque, pela primeira vez, abordam de forma clara o tema dos pneus PCR. Um dos principais problemas económicos da renovação de pneus ligeiros resulta da enorme diversidade de dimensões, atualmente existentes no mercado.

Os fabricantes automóveis utilizam uma multiplicidade de medidas de pneus, muitas delas produzidas em volumes muito reduzidos, o que torna extremamente difícil e pouco rentável organizar processos industriais de renovação.

A Comissão Europeia parece ter identificado este problema. Uma das ideias atualmente em análise passa por incentivar — ou até obrigar — os fabricantes automóveis a reduzir o número de dimensões utilizadas nos seus veículos.

A proposta prevê que uma percentagem significativa dos automóveis utilize um conjunto muito mais limitado de medidas de pneus, eliminando muitas das dimensões de reduzida utilização que hoje dificultam todo o processo de reutilização e renovação. Se esta abordagem vier a ser implementada, poderá representar uma mudança muito importante para o setor.

Que impacto poderá ter essa medida?

A médio e longo prazo, poderá contribuir decisivamente para o desenvolvimento da renovação de pneus para veículos ligeiros na Europa.

Quanto menor for a dispersão de medidas disponíveis no mercado, maior será o número de carcaças compatíveis para reutilização, tornando o processo industrial mais eficiente e economicamente viável.

É precisamente disso que o setor necessita: mais empresas dedicadas à renovação de pneus PCR e um mercado suficientemente estruturado para tornar esta atividade sustentável.

Se conseguirmos aumentar o valor dos materiais reciclados e utilizá-los em aplicações de elevado valor acrescentado — como o fabrico de novos pneus — deixará de fazer sentido exportar pneus em fim de vida para outros continentes. O verdadeiro valor estará no próprio material, que permanecerá na Europa e continuará integrado na cadeia de valor da indústria.

Esse é, afinal, o principal objetivo da economia circular: manter os recursos em circulação durante o máximo de tempo possível, reduzindo a dependência de matérias-primas virgens, reforçando a competitividade da indústria europeia e promovendo um modelo de desenvolvimento mais sustentável.


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