Entrevistámos Nelson Lopes, Administrador do Grupo Valpi, no ano de comemoração do centenário do grupo, que partilha connosco as origens, bem como o momento atual das várias empresas que integram este grupo nacional.
Atualmente com 56 anos, Nelson Lopes está no Grupo Valpi desde os 23 anos. Faz parte do Conselho de Administração da Valpi SGPS e de todas as empresas operacionais do grupo, tendo também participações dentro do grupo.

Este responsável conta-nos que “a empresa, que deu origem ao Grupo Valpi, nasceu pelas mãos do Sr. Alberto Pinto que há 100 anos, atuava no setor dos transportes de passageiros. Os registos que temos datam de 1926, pelo que estamos a celebrar este ano o nosso centenário. O nome Valpi deriva de Viagens Alberto Pinto.
O Sr. Alberto Pinto, fundador daquilo que hoje é o Grupo Valpi, manteve a posse daquela sua empresa até ao final da sua vida, sendo que depois a sua família ficou com a empresa, tendo passado um período difícil no período do pós 25 de abril, por falta de liderança.
Na década de 80, José Eduardo Pinto de Azevedo Caramalho, um dos netos do Sr. Pinto, resolveu comprar a empresa à família, reestruturando por completo o negócio dando-lhe uma nova vida. O início dos anos 90 marca o momento em que entro na empresa e onde também ocorre uma efetiva reorganização nas nossas atividades no transporte de passageiros. Começámos assim a trabalhar de forma mais intensiva na área metropolitana do Porto e Gaia, nos serviços de transportes urbanos de passageiros.
Durante os anos de 2007 a 2011 dá-se a grande expansão da nossa empresa, diversificando as nossas áreas de atuação, com diferentes negócios que hoje compõem as atividades do Grupo Valpi. Atualmente as nossas empresas são a Valpi Bus nos autocarros, a Valpi Rent no rent-a-car, a Valpi Travel e Marão Tâmega nas viagens. No setor industrial temos a empresa Bioport, e a Britafiel que atua no segmento das pedreiras. Dispomos de empresas que prestam serviços ao grupo, como a Valpi Serviços (entre outras), bem como atividades no setor imobiliário.
Trata-se de um conglomerado de empresas e de negócios que nem sempre são complementares e que apresentam desafios muito diferentes, mas permite-nos diversificar as atividades nestes anos mais recentes. Curiosamente, todas as empresas que adquirimos são agora bem maiores do que a empresa-mãe.
Atualmente a segunda geração da família está a gerir os destinos da empresa, tendo à frente José Eduardo Sousa Azevedo Caramalho como CEO, bem como os seus dois irmãos que também fazem parte da nossa administração.

Setor da mobilidade
A Valpi Bus opera nos transportes urbanos, interurbanos e turismo de passageiros. Continua a atuar nas áreas do distrito do Porto, através de uma nova fase regida por concursos públicos.
Grande parte da nossa frota urbana foi renovada para cumprir com os requisitos dos concursos, mas fomos mais além, pois estes autocarros circulam com 100% de biocombustíveis. Esses biocombustíveis são avançados, o que significa que o nível de redução de emissões rondará os 90%. Não é só o veículo elétrico que descarboniza.
Temos cerca de 100 autocarros na nossa frota e temos vindo a investir mais na marca MAN, pela compatibilidade tecnológica dos seus motores na utilização de 100% biodiesel. As outras marcas de autocarros ainda estão atrasadas na utilização desta solução energética. Em termos de serviços de pós-venda, possuímos oficinas próprias em Gandra e Penafiel, que dão suporte técnico e assistência à nossa frota.
A maior parte da nossa frota regista níveis de emissões muito baixos. Curiosamente, estes biocombustíveis podem ser utilizados nos autocarros mais antigos e também nos mais novos. A partir de uma determinada percentagem, não dá para utilizá-los na faixa intermédia. Adquirimos autocarros novos com a condição de serem compatíveis na utilização de biocombustíveis, embora os autocarros mais antigos, por terem uma eletrónica mais simples, funcionam sem grandes problemas com biocombustíveis a 100%.
O dilema do setor dos autocarros é que a legislação contempla as emissões medidas apenas à saída do tubo de escape, e não em todo o ciclo de vida do autocarro, onde os elétricos acabam por se destacarem.
Os biocombustíveis não deixam de poluir à saída do escape, mas são neutros na economia circular, porque os resíduos nocivos que iriam contaminar o ambiente são transformados em algo de útil. No ciclo do resíduo, têm um nível de redução de emissões muito significativo, mas a legislação europeia tem beneficiado muito mais os veículos elétricos.

Negócio da rent-a-car e viagens empresariais
Quando comprámos a agência de viagens Marão Tâmega, esta tinha no seu portfólio uma empresa agregada, chamada Castro e Cunha que veio a dar origem à Valpi Rent.
No início das suas atividades em 2007, a Valpi Rent tinha cerca de 20 viaturas. Atualmente, estamos a alcançar as cerca de 2500 viaturas na nossa frota e que nos proporciona uma abrangência geográfica bastante completa em termos nacionais, exceto na região do Algarve onde ainda não atuamos.
O nosso modelo de negócio baseia-se pouco no segmento do turismo, e mais na área empresarial. Somos uma rent-a-car vocacionada para o segmento corporate, com maior incidência em seguradoras, companhias de assistência em viagem, e empresas em geral.
O nosso objetivo agora é melhorar a interação com as empresas que nos alugam viaturas, através de um conjunto de infraestruturas de apoio baseadas numa maior digitalização, que nos permitirá uma melhor comunicação e partilha de informações, com os nossos clientes. Paralelamente, estamos a desenvolver ferramentas digitais internas, em parceria com a Universidade do Porto, para sermos ainda mais eficientes, otimizando o nosso trabalho.
Cerca de 30% da nossa frota é composta por veículos comerciais ligeiros (VCL). Temos muitas viaturas transformadas, indo de encontro às necessidades dos clientes empresariais dos mais diversos setores. Estamos a aumentar os balcões de atendimento ao público, com um modelo de negócio flexível e baseado em agentes locais e com elevado nível de profissionalismo.
No segmento das viagens, temos duas empresas com 6 balcões, que trabalham maioritariamente o segmento empresarial. Continuamos a ser mais competitivos do que os atuais agentes da internet. Orgulhamo-nos de ter profissionais com um grande conhecimento das necessidades das empresas, capazes de propor soluções à medida e que fazem um acompanhamento ímpar de todos os processos que envolvem as viagens.
Produção de Biocombustíveis – Bioport

A Bioport nasceu em Baltar como produtora de biocombustíveis a partir de óleos vegetais virgens. Entretanto, o mercado foi evoluindo e a utilização desses óleos veio a diminuir, aumentado a utilização de resíduos contaminados. Esses resíduos são, por exemplo, produtos alimentares fora de prazo, como margarinas, manteigas, entre outros, bem como os resíduos de refinação de óleos com contaminantes químicos.
Recebemos resíduos que não são homogéneos, com diferentes origens e diferentes contaminações, que tornam o processo oneroso e complexo. Para tal, criámos várias camadas de tratamento, onde operamos 24h por dia, 7 dias por semana. Isto implica uma capacidade de controlo e organização ímpar no mercado.
Detemos um laboratório que está constantemente a fazer análises, quer aos resíduos, quer depois aos produtos finais (biocombustíveis), onde a legislação é extremamente rigorosa e temos de cumprir com todos os parâmetros.
Temos de ter um produto que cumpra com normas e critérios dos nossos clientes, ainda mais exigentes de quando os biocombustíveis eram feitos com óleos vegetais virgens. Com tudo isto, podemos garantir que o consumidor quando está a abastecer a sua viatura, está a ter acesso ao melhor produto do mercado.
Os grandes clientes da Bioport são os denominados incorporadores, ou seja, as empresas como a Galp, Repsol, BP, Moeve ou Prio, que incorporam até 7% biocombustíveis nos seus combustíveis para automóveis. Por exemplo, um automóvel ligeiro que abasteça na Galp aqui na região norte, está a abastecer com biocombustível proveniente da Bioport
Um dos investimentos que temos previsto é a construção de uma nova fábrica para pré-tratamento destas matérias-primas, para indústrias que são complementares à nossa como é o caso das fábricas produtoras de HVO em Portugal e Espanha. Vamos crescer a montante, onde vamos comprar mais resíduos com elevados níveis de contaminação e vamos transformá-los em resíduos utilizáveis, para indústria dos combustíveis sintéticos como o HVO, SAF e o Biodiesel.
A Bioport compra os resíduos a nível nacional e internacional e transforma-os em biodiesel. É produzido em Portugal e consumido em Portugal, otimizando a cadeia de valor. Com a nova fábrica de pré-tratamento, iremos aumentar ainda mais esta cadeia de valor.

Segmento das pedreiras – Britafiel
Iniciámos as nossas atividades nesta área de negócio com uma pedreira de granito de 16 hectares e, hoje, atuamos em terrenos licenciados ou em zonas de licenciamento com cerca de 45 hectares. Atualmente estamos a laborar a 100% da nossa capacidade, onde temos toda a produção tomada, por força das condições positivas do mercado.
Trabalhamos em duas vertentes: o segmento das rochas ornamentais e o segmento de agregados para a construção civil e obras públicas. Tanto a construção civil como as obras públicas estão a crescer e prevê-se que ao segmento dos agregados irá crescer ainda mais com a construção da linha do TGV.
Fazemos a gestão das nossas máquinas e dispomos de uma frota com cerca de 7 giratórias, 10 dumpers, 5 pás carregadoras, além de uma panóplia de equipamentos para perfuração e corte da rocha ornamental e das centrais de produção agregados (britas e areias).

Comemoração dos 100 anos
Trabalhamos muito em contraciclo: quando muitos procuram seguir para um determinado caminho, nós tomamos um outro caminho. O período de 2007 a 2011 foi de grande crise mundial e as empresas estavam todas a contrair. Foi justamente nesse período que expandimos as atividades das nossas empresas, e mérito seja feito ao fundador da nova fase do nosso grupo, José Eduardo Pinto de Azevedo Caramalho, que demonstrou um espírito empreendedor acima da média do nosso setor.
Na administração todos assumimos riscos, mas acima de tudo acreditamos no que fazemos, com a força de vontade suficiente para resistir às adversidades, pois essas são a únicas coisas que são garantidas. Temos em todas as empresas do grupo, pessoas que têm valores em comum, com espírito integro.
O ano de 2025 foi um ano de mudanças, sendo que 2023 e 2024 foram anos muito positivos. Por exemplo, só em dezembro de 2025 é que iniciou a exploração do serviço no âmbito da CIM do Tâmega e Sousa, depois de dois anos em “suspenso”, onde tivemos de acarretar com todos os prejuízos associados a esta inatividade.
Entramos em 2026 a investir acima do que fizemos no passado. Vamos ter mais investimentos nos transportes, dotando essa área de novas infraestruturas, de novos autocarros elétricos num investimento projetado na ordem dos 10 milhões de euros. Na Britafiel, teremos uma nova central de agregados, associada à compra de áreas de potencial exploração, num investimento que rondará os 5 milhões de euros.
Na Bioport iremos investir cerca de 7,5 milhões de euros numa nova unidade. Na nossa empresa de rent-a-car o investimento será, como referi, numa maior estruturação digital. Já no setor imobiliário, o nosso investimento irá rondar os 10 milhões de euros. Iremos comemorar assim os nossos 100 anos com mais trabalho, mais investimentos, mantendo o espírito empreendedor que nos caracteriza, desde os primórdios do Grupo Valpi”, destacou Nelson Lopes.


























