
Texto escrito com a colaboração de Wim Chatrou, diretor de comunicação da DAF de 1972 até 1994.
O modelo DAF 3300 ATi representa uma era de ouro da engenharia no transporte rodoviário europeu: uma época em que a mecânica era simples, resistente e feita para durar. Ainda hoje, exemplares preservados continuam a operar em território nacional, como é o caso do Município de Viseu. A Revista Automotive acompanhou uma deslocação deste exemplar até aos Bombeiros Sapadores de Viseu, localizados junto ao Aeródromo daquela cidade.Texto escrito com a colaboração de Wim Chatrou, diretor de comunicação da DAF de 1972 até 1994.

Em bom estado de conservação e manutenção, este camião DAF 3300 Ati transportou de forma segura e ágil, um trator Valtra que incorpora equipamentos para trabalhos florestais, com um peso a rondar as 12 toneladas. Na estrada íngreme até chegar ao Aeródromo, este DAF demonstrou estar ainda bastante capaz de realizar transportes, bem como de ter o motor “afinado” pois em todo o percurso (e mesmo em locais onde o binário foi posto à prova), nunca lançou uma “nuvem de fumo” pelo escape.
Este é um bom exemplo de gestão municipal, onde equipamentos que ainda estão funcionais e seguros, possam continuar a desempenhar a função para qual foram concebidos. Evitam assim milhares de toneladas de CO2 necessárias para a produção de novos camiões, quando ainda se podem utilizar, em serviços específicos, equipamentos de grande qualidade e até de valor emocional para os profissionais do setor.

Contextualização
O DAF 3300 ATi foi um dos grandes camiões europeus das décadas de 1980 e início de 1990, reconhecido pela sua robustez, simplicidade mecânica e enorme capacidade de trabalho. Com a sua frente quadrada imponente, a grelha preta característica e o conhecido símbolo “ATi Turbo Intercooling”, tornou-se uma presença habitual nas estradas portuguesas, tanto no transporte nacional como internacional.
A série 3300 surgiu como evolução dos anteriores DAF 2800 e 3300, numa época em que a marca holandesa procurava criar veículos mais potentes, confortáveis e económicos para o transporte pesado. O sistema ATi — “Advanced Turbo Intercooling” — representava uma tecnologia avançada para a época, utilizando turbo e intercooler para melhorar a potência e reduzir consumos. O motor de cerca de 11,6 litros debitava aproximadamente 330 cavalos, proporcionando um binário e uma fiabilidade que rapidamente lhe deu fama entre motoristas e empresas de transporte.
Ligação com Portugal
Em Portugal, estes camiões tornaram-se extremamente populares durante os anos 80 e 90. Muitos trabalharam em longas rotas internacionais, atravessando Espanha, França e o resto da Europa, enquanto outros serviram no transporte de madeira, materiais de construção e mercadorias pesadas. Eram veículos conhecidos por “aguentarem tudo”, capazes de percorrer milhões de quilómetros mantendo a sua operabilidade.
Existe também uma forte ligação portuguesa na história deste modelo. Durante vários anos, a DAF teve produção e montagem em Portugal através da unidade da Leyland-DAF na região de Setúbal. Alguns modelos destinados ao mercado nacional e exportação foram montados em território português, razão pela qual há muitos DAF 3300 “portugueses”. Isso contribuiu para a grande presença da marca no nosso país e para a ligação emocional que muitos motoristas ainda mantêm com estes veículos, ao longo de décadas.
O exemplar do Município de Viseu, está equipado com a cabina especial, que incluía vidros traseiros e na lateral para que o motorista pudesse visualizar a traseira do veículo sem ter de sair da cabina. Esta versão era indicada para transporte de máquinas, função que continua a desempenhar até aos dias de hoje, mantendo a facilidade de operação para a qual foi concebido.

Foto no porto de Setúbal (cerca 1975-1976), com o primeiro camião DAF 2800, assemblado em Portugal, juntamente com pescadores e o Saveiro, barco de pesca tradicional da região.
A DAF montou diversos modelos de camiões em Setúbal através da empresa portuguesa Proval. À época, Portugal não era membro da União Europeia e a montagem local era incentivada para gerar emprego.
Imagem gentilmente cedida pela família de Henk Jansen, supervisor da fábrica da DAF em Setúbal, falecido em 2021 aos 78 anos.



























