Durante mais de dois séculos, a mineração esteve na base da industrialização europeia. Carvão, ferro, cobre, estanho, volfrâmio e muitos outros recursos minerais alimentaram fábricas, centrais elétricas, caminhos de ferro e cidades inteiras, contribuindo para o crescimento económico de países como a Alemanha, Reino Unido, França, Bélgica, Polónia e Portugal.

À medida que as minas prosperavam, surgiam comunidades, infraestruturas e milhares de postos de trabalho, transformando regiões inteiras em importantes polos industriais.
Quando a mineração foi transferida para outros países fora da Europa, milhares de explorações encerraram, com consequências para os trabalhadores, para as cidades e para o ambiente.
Nas últimas décadas, esta realidade começou a mudar. A recuperação ambiental das antigas explorações mineiras passou a assumir um papel mais relevante em alguns locais e atualmente procura-se devolver esses territórios às populações e à natureza.
Esta transformação está a dar origem a uma nova geração de projetos de reabilitação, onde a engenharia civil, a tecnologia das máquinas e a ecologia trabalham em conjunto para recuperar áreas alteradas pela atividade humana.

Ativos ecológicos
Em alguns casos, a recuperação depende de grandes intervenções de engenharia, envolvendo milhões de metros cúbicos de movimentação de terras, estabilização geotécnica e monitorização permanente através de tecnologias digitais.
Noutros, opta-se por uma estratégia diferente: reduzir ao mínimo a intervenção humana e permitir que os próprios processos naturais conduzam à regeneração da paisagem. Estas duas filosofias, aparentemente distintas, têm hoje um objetivo comum: transformar passivos ambientais em ativos ecológicos e sociais.

A antiga mina de Maybach, no estado alemão do Sarre, representa um dos exemplos mais interessantes da primeira abordagem. No estado alemão do Sarre, a poucos quilómetros da fronteira com França, a antiga mina de Maybach continua a marcar profundamente a paisagem.
Durante quase um século foi um dos principais motores económicos da região, empregando milhares de trabalhadores e abastecendo de carvão uma indústria que ajudou a impulsionar a reconstrução da Alemanha. A história de Maybach começa em 1873, com a exploração de carvão, detida por membros da família Maybach.
À medida que a produção aumentava, crescia também a comunidade mineira. A partir de 1884 começaram a ser construídas habitações para trabalhadores, edifícios administrativos, dormitórios e uma escola, dando origem ao atual bairro de Maybach. Mais do que uma unidade industrial, a mina transformou-se num verdadeiro centro urbano, onde milhares de famílias viviam em torno da atividade carbonífera.

Durante a primeira metade do século XX, Maybach tornou-se um dos maiores complexos mineiros do Sarre. A incorporação de explorações vizinhas permitiu que chegasse a operar 18 poços, empregando cerca de 6.700 trabalhadores e produzindo aproximadamente 6.300 toneladas de carvão por dia no início da década de 1950. A mineração era muito mais do que uma atividade económica: representava a identidade de toda uma região.
Apesar dos investimentos realizados na modernização das infraestruturas durante as décadas seguintes, a produção diminuiu e o número de trabalhadores reduziu-se progressivamente. A exploração encerrou oficialmente em 1964, embora algumas instalações continuassem a ser utilizadas para transporte de materiais e de pessoal até 1981.
Ao longo de décadas de exploração, enormes quantidades de resíduos provenientes da extração de carvão foram depositadas numa vasta escombreira com cerca de 27 hectares, criando uma paisagem artificial dominada por materiais instáveis. A erosão, a existência de antigos poços subterrâneos e a instabilidade geotécnica impediram qualquer reutilização daquele espaço, transformando-o num dos maiores passivos ambientais da região.

Um novo ambiente
No entanto, em 2020 teve início um ambicioso programa de recuperação ambiental destinado a devolver este território à comunidade. A intervenção, cuja conclusão está prevista para 2028, envolve uma operação de engenharia de enorme escala: cerca de dois milhões de metros cúbicos de terras estão a ser movimentados para remodelar completamente a topografia da antiga escombreira, estabilizar os terrenos e criar condições para o restabelecimento da vegetação e da biodiversidade.
A dimensão do projeto obrigou os responsáveis a procurar métodos de trabalho diferentes dos habitualmente utilizados em operações de movimentação de terras. A gestão diária de milhares de cargas de material, a monitorização permanente da evolução do terreno e a necessidade de controlar rigorosamente os volumes movimentados, exigiram maquinaria com elevada tecnologia. Foi neste contexto que a Komatsu assumiu um papel central.
Sob a direção da Heitkamp Corporate Group, a recuperação de Maybach passou a recorrer às soluções Komatsu Smart Construction, um sistema que integra máquinas equipadas com controlo tridimensional e sistemas avançados de monitorização da obra. Invés de depender apenas de levantamentos topográficos periódicos, toda a informação produzida pelas máquinas tem sido recolhida automaticamente, permitindo criar diariamente um gémeo digital (Digital Twin) do terreno.
Assim, enquanto os bulldozers executam os trabalhos de terraplenagem, registam continuamente a sua posição e as cotas do terreno. Esses dados são enviados para um servidor e integrados com levantamentos efetuados por drones, originando um modelo tridimensional permanentemente atualizado da obra.

Tecnologia em escala
Em qualquer momento, a equipa consegue saber quanto material já foi colocado, quanto falta transportar, quais as zonas que necessitam de novas intervenções e se os objetivos de produção estão a ser cumpridos. Toda esta informação é centralizada através da plataforma Smart Construction Dashboard, permitindo comparar os volumes efetivamente movimentados com os registos da báscula, simplificando igualmente os processos administrativos e de faturação.
Para Bart Vingerhoets, Senior Commercial Manager da Komatsu Europe, “esta capacidade de reunir toda a informação numa única plataforma representa uma mudança de paradigma na gestão das grandes obras de engenharia. Em vez de cada interveniente trabalhar com dados distintos, todos — desde a direção de obra até à administração — tomam decisões com base na mesma informação, permanentemente atualizada”.
Maybach tornou-se um exemplo de como a tecnologia incorporada nas máquinas está a impactar positivamente no setor da engenharia civil e da recuperação ambiental. A tecnologia não substitui a experiência dos engenheiros nem a potência das máquinas, mas fornece-lhes uma capacidade de análise e de controlo que facilita todo o processo.
À medida que a antiga escombreira vai sendo estabilizada e preparada para acolher novos espaços verdes, zonas de lazer e futuros projetos de desenvolvimento sustentável, Maybach demonstra que uma exploração mineira encerrada não tem de permanecer como uma cicatriz permanente na paisagem.
Com recurso à tecnologia da Komatsu, e a uma visão de longo prazo, um dos maiores passivos ambientais do Sarre está gradualmente a transformar-se num território preparado para iniciar um novo capítulo da sua história.

Portugal – a natureza se torna a principal engenheira
O Paul de Toirões, no concelho de Almeida, em Portugal revela uma abordagem diferente de Maybach, mas igualmente eficaz. Aqui, no Grande Vale do Côa, a engenharia teve um papel mais discreto: em vez de reconstruir a paisagem, procurou criar as condições para que fossem os próprios processos naturais a conduzir a regeneração do ecossistema.
Conhecida no passado como Quinta de Santa Margarida, a propriedade foi sucessivamente utilizada para a exploração de volfrâmio e de inertes. Tal como aconteceu em muitas outras regiões mineiras europeias, a extração deixou para trás escavações profundas, taludes artificiais e um território profundamente alterado.
Em 2022, a Rewilding Portugal e a Mossy Earth iniciaram um conjunto de intervenções desenhadas para restaurar os processos hidrológicos da área. Ao contrário de projetos convencionais de engenharia ecológica, o objetivo não era desenhar um ecossistema. Era permitir que aquele que já existia emergisse em toda a sua funcionalidade e capacidade.
Segundo a Rewilding “foram identificados vários pontos onde a água abandonava rapidamente a paisagem através de antigos canais de drenagem e passagens estreitas criadas durante a exploração mineira. Nesses locais foram construídas barreiras estratégicas naturais utilizando os próprios materiais disponíveis no terreno e reforçadas com vegetação nativa, incluindo salgueiros, que se têm espalhado pela paisagem através de dispersão natural. Algumas passagens artificiais foram removidas ou bloqueadas. Antigos tubos de drenagem deixaram de acelerar o escoamento da água.
Novos habitats
Falamos de pequenas intervenções à vista, mas que levam o seu tempo e que têm consequências extraordinárias na saúde de uma paisagem aquática. Ao reduzir a velocidade do escoamento, a água passou a espalhar-se pela paisagem de forma mais uniforme, inundando áreas que anteriormente permaneciam secas durante grande parte do ano e criando assim novos habitats aquáticos e semiaquáticos.

O resultado não foi apenas mais água. Foi mais tempo para a água e ter a água por mais tempo, em mais locais diferentes dos que anteriormente ocupava. E essa diferença muda e mudou tudo.
Em 2020, antes das intervenções, a área analisada apresentava 21.472 metros quadrados de superfície de água. Na primavera de 2023, poucos meses após a conclusão dos trabalhos de maquinaria e intervenção mais direta, esse valor já tinha aumentado na altura para 31.706 metros quadrados – um crescimento já significativo de 47,2%. Mas o resultado mais impressionante acabou por surgir nos anos seguintes.
À medida que a vegetação se estabeleceu, que os solos começaram a recuperar capacidade de retenção e que os novos sistemas húmidos estabilizaram, a superfície de água continuou a aumentar. Em abril de 2026 atingia já 40.743 metros quadrados. Estamos a falar de um aumento de 87,3% relativamente à situação anterior às intervenções, em apenas 3 anos e meio.
Num território mediterrânico marcado por secas recorrentes e crescente escassez hídrica, este é um resultado particularmente significativo e não justificado apenas por anos mais chuvosos, já que estes também têm sido seguidos por verões mais secos e vice-versa. E esta diferença não acontece apenas porque existe mais água na paisagem, mas sim porque existe uma paisagem verdadeiramente capaz de armazená-la.

Territórios resilientes
E onde surgem habitats diversificados, a biodiversidade responde. Entre a vegetação aquática reproduzem-se hoje em rãs-verdes, relas e rãs-ibéricas. As lagoas oferecem refúgio ao cágado-de-carapaça-estriada, espécie considerada quase ameaçada devido à perda generalizada de zonas húmidas em toda a Europa. Libélulas, escaravelhos aquáticos e inúmeros outros invertebrados ocupam nichos ecológicos que simplesmente não existiam antes.
Nas margens inundadas alimentam-se aves limícolas e patos. As lontras e a garça-real aproveitam-se dos invasores lagostins-vermelhos, mantendo o seu número controlado e utilizando-os como importante alimento e parte da sua dieta. Nos céus circulam regularmente milhafres-pretos, águias-cobreiras e tantas outras aves que até já nidificam no local. A tímida cegonha-preta já se mostra e aparece por cá com regularidade”, refere a Rewild.
Maybach e Paul de Toirões estão separados por mais de dois mil quilómetros, mas unidos por um mesmo objetivo — representam duas faces da recuperação ambiental, onde engenharia, inovação tecnológica e processos naturais deixam de competir entre si para passarem a trabalhar lado a lado.
Ambas demonstram que a recuperação de antigas explorações mineiras deixou de ser apenas uma obrigação ambiental para se transformar numa oportunidade de criar territórios mais resilientes, mais bio diversos e preparados para responder aos desafios das próximas décadas.



























