Por Meghan Barton – da Revista Recycling Product News
Quando uma bateria de iões de lítio se incendeia num parque de sucata ou numa instalação de recuperação de materiais (MRF), a maioria dos operadores concentra-se no perigo visível: as chamas, o fumo, a urgência em extinguir o incêndio.

Mas Randy Narine, presidente e CEO da Clean Core Research e bombeiro em serviço ativo, alerta para que a indústria da reciclagem compreenda uma realidade mais profunda: os incêndios em baterias de iões de lítio comportam-se de forma diferente de outros incêndios e exigem métodos de supressão completamente distintos.
Narine afirma que “o incêndio é apenas uma parte. O colapso estrutural é outra. A minha maior preocupação é a libertação química em si; identificar o que foi exposto, limpar e mitigar esse risco.”
Através de uma investigação extensiva, Narine e a sua equipa confirmaram que os subprodutos da combustão das baterias de iões de lítio, incluindo ácido fluorídrico, cloreto de hidrogénio e outros compostos orgânicos voláteis (VOCs), podem corroer metais, saturar o equipamento de proteção, danificar equipamentos sensíveis e até comprometer a qualidade dos materiais reciclados expedidos.
Os incêndios estão a aumentar
“Posso dizer que os incêndios aumentaram. Penso que o valor referido rondava os 40% de aumento anual. Esse aumento é atribuído a 100% aos incêndios causados por baterias de iões de lítio. Sucateiros e recicladores nem sequer recorrem ao seguro, porque sabem que, a cada participação o prémio do seguro aumenta; por isso, nem se dão ao trabalho. O incêndio apaga-se e seguem em frente”, explica Narine.
O que não é divulgado e o que os recicladores não reconhecem
Em 2024, a Clean Core Research conduziu uma investigação após um incêndio causado por uma bateria de lítio numa habitação. O incêndio foi rapidamente extinto, mas, poucos dias depois, os painéis elétricos começaram a apresentar sinais de corrosão, mesmo em zonas da casa não atingidas pelas chamas. Ferramentas enferrujaram. Tomadas degradaram-se. Sistemas AVAC acusaram contaminação química.
Noutro caso, após o incêndio de uma bateria de bicicleta elétrica num espaço interior, os investigadores da Clean Core encontraram níveis de contaminação de até 17g/m2, e até a 100mts do local do incêndio — muito acima do limite de trabalho do Instituto Nacional para a Segurança e Saúde Ocupacional (NIOSH), que é de 0,5m. Em ambos os casos, e de acordo com a prática habitual, a seguradora não exigiu uma descontaminação completa e, poucos dias depois, várias pessoas na área adoeceram.
O fumo desaparece, mas a ameaça permanece
Os operadores de MRFs e parques de sucata frequentemente ignoram a forma como a fuligem e os resíduos destes incêndios aderem a materiais têxteis e superfícies. Segundo Narine, “existem partículas metálicas, VOCs e agentes cancerígenos que ficam impregnados nos tecidos, tais como luvas, fatos de proteção, coletes refletores, estofos dos bancos de equipamentos com cabine, filtros AVAC, entre outros.
A lavagem normal do EPI não é suficiente. Não basta limpar. É necessária uma descontaminação adequada. Caso contrário, o equipamento continua tóxico.
Os efeitos corrosivos dos resíduos de incêndios em baterias de lítio continuam ativos durante muito tempo. Já vi materiais a reagirem um mês depois. Ainda não temos uma resposta precisa sobre quanto tempo continuam ativos. É precisamente essa a investigação que estamos a desenvolver neste momento.”

Custos a curto, médio e longo prazo
Acrescenta ainda que os recicladores, em particular, precisam de compreender como estes incêndios podem comprometer a qualidade dos materiais. Quando baterias de iões de lítio entram em combustão, os subprodutos corrosivos não se limitam a depositar-se nas superfícies — degradam-nas ativamente. Metais expostos à fuligem e a gases começam a oxidar rapidamente, muitas vezes em poucas horas ou dias. Provoca corrosão dos materiais, ferrugem e enfraquecimento estrutural, retiram-lhe valor comercial ou ficam totalmente inutilizáveis.
Os materiais afetados podem sair das instalações antes de os danos se tornarem visíveis, mas os clientes devolvem ou rejeitam devido à corrosão inesperada, prejudicando tanto as relações comerciais como a reputação do reciclador. Para instalações que dependem da revenda de metais recuperados limpos e de alta qualidade, este tipo de incidente pode ter um impacto financeiro duradouro.
E não são apenas os metais. Os resíduos dos incêndios em baterias de lítio também podem comprometer a integridade de plásticos, borrachas, revestimentos e materiais compósitos frequentemente encontrados em resíduos eletrónicos e componentes automóveis. Sem testes e descontaminação adequados, estes materiais podem continuar a degradar-se mesmo depois de processados e vendidos.
Prevenção e contenção
O primeiro passo é a avaliação de risco. “Entramos, identificamos os riscos específicos relacionados com baterias. Depois criamos procedimentos sobre como lidar com esses riscos, como armazenar materiais em segurança e como mantê-los na operação sem prejudicar o fluxo de trabalho, mas também sem obrigar ao encerramento em caso de incidente.”
A contenção é crítica. No caso dos incêndios em baterias de iões de lítio, o objetivo nem sempre é extinguir imediatamente as chamas, mas sim impedir a propagação do calor, dos gases e dos subprodutos corrosivos para materiais e estruturas circundantes. Soluções de contenção adequadas podem proporcionar tempo valioso para evacuação segura e resposta de emergência, minimizando simultaneamente os danos ambientais e aos equipamentos.

Testes, limpeza e resposta a longo prazo
Os resíduos de incêndios em baterias de iões de lítio podem permanecer quimicamente ativos muito depois de as chamas se extinguirem, e ignorar este fato pode disseminar a contaminação, provocar falhas de equipamentos com custos a vários níveis.
“A recolha de amostras de solo é uma componente fundamental – tivemos um caso em que foi necessário remover seis camiões basculantes de terra para eliminação da contaminação”.
Devem ser analisados os sistemas AVAC, os painéis elétricos e cablagens materiais têxteis, como EPI, estofos de bancos e filtros, se precisam ser removidos e/ou substituídos. Os materiais nas áreas imediatas e circundantes podem necessitar de testes de superfície ou análises químicas, mesmo que aparentem estar intatos visualmente. Também são recomendados testes à qualidade do ar, monitorização da corrosão e avaliação dos níveis de humidade, sobretudo em espaços fechados ou mal ventilados.
A falta de ação rápida e adequada da limpeza, e a documentação que comprova a ausência de contaminação dá aso a ações processuais relativas às responsabilidades legais, sociais e ambientais contra a empresa.
O que os recicladores devem fazer
Narine incentiva os recicladores e operadores de parques de sucata a tomarem medidas proativas antes que um incêndio em baterias de iões de lítio os obrigue a agir. Demasiadas vezes, as instalações só implementam protocolos de segurança depois de um incidente. Mas, nessa altura, os danos já estão feitos. Desde avaliações de risco e estratégias de contenção até formação adequada das equipas, a ação precoce é essencial para minimizar riscos, evitar penalizações regulamentares e proteger as operações a longo prazo.


























