O aço deverá desempenhar um papel de destaque na próxima década na Europa, ajudando os fabricantes de automóveis a compensar as emissões dos tubos de escape, o que lhes permitirá vender motores a combustão interna após 2035 e ao mesmo tempo, atingir os objetivos globais de sustentabilidade.

Para informar o nosso leitor de como o aço será o protagonista fomos à “fonte”: ThyssenKrupp. Um grupo industrial diversificado de alta tecnologia alemã com mais de 155.000 empregados em quase 80 países. A empresa resultou da união em 1999 das empresas Thyssen e Krupp. Suas atividades estão organizadas em cinco segmentos: Automotive Technology (onde se englobam os amortecedores Bilstein), Decarbon Technologies, Materials Services, Steel Europe e Marine Systems.
Steel Europe é a fundição! Gigante na produção do aço (um dos maiores fornecedores para a indústria automotiva), e foi a base da criação da empresa pelo seu fundador Friedrich Krupp. Disponibilizam visitas guiadas para interessados/turistas, com marcação prévia e uma taxa simbólica. Mas para melhor conhecer e compreender tivemos o privilégio da companhia do especialista e profundo conhecedor Mark Stagge, Head of Public and Media Relations da Thyssenkrupp Steel.
Processo produtivo
Tudo depende da matéria-prima e daí a unidade ter sido construída em Duisburg – uma grande jazida de carvão (atualmente já não explorada). A sua localização junto ao rio Reno contribui para colmatar a necessidade de utilizar uma grande quantidade de água na produção, arrefecimento e obviamente no transporte; seja dos minérios; seja do aço.

A empresa tem o seu próprio porto no Reno, com ligação direta ao porto de Roterdão, de onde chegam as matérias-primas: carvão e minério de ferro. A primeira fase é transformar o carvão em coque (sólido), e o minério em sinter (líquido).
Tanto o coque como o sinter são despejados no forno alto – um “caldeirão” gigante cuja temperatura pode chegar aos 2.000ºC – onde se transformam em ferro-gusa (líquido). Adiciona-se então a sucata (ferro e aço), após a homogeneização da temperatura, liquefação e outros parâmetros, dá-se início ao processo de remoção das impurezas (escória). Puro, limpo e em perfeito estado de adequação, o aço líquido é solidificado em equipamentos para produzir lingotes, bobines e o slag, que é um subproduto utilizado na indústria do asfalto e na cimenteira.
Ambiente único

O alto forno da empresa, o Schwelgern 1, em pleno funcionamento desde 1972, é o ponto mais alto e impressionante de toda a empresa e da visita. É todo um complexo que envolve o conversor a oxigénio (Processo Linz-Donawitz), no qual o “caldeirão” contendo cerca de 260 toneladas de gusa líquida é vertido. É um local de transformação. Que tem influência não só nos materiais, mas também nas pessoas. Conjuga força bruta com uma precisão e grande sensibilidade.
O local é pouco iluminado, até frio, porque o dia estava chuvoso; mas quando o “caldeirão” verte a gusa a uma temperatura acima dos 1600 graus, de repente tudo fica iluminado, é uma luz que preenche todos os espaços. O aço líquido tem uma luz é tão intensa, mas tão intensa que atrai e brilha, e brilha mais do que ouro. Dá uma sensação de estar nas entranhas da terra, próximo de uma fonte que espalha vida, luz e calor sem fim.
O calor gerado é gigantesco, tanto que a Thyssenkrupp aproveita essa energia para alimentar uma central termoelétrica, que abastece a própria fundição, bem como cerca de 40.000 casas à volta da empresa.
Voltemos aos lingotes, que medem mais de 10 metros, ou às bobinas, cujo comprimento pode atingir até 1 Km. São diferentes das que vemos habitualmente: estão como que vivas, pulsantes, radiantes, e extremamente quentes. Parece que estamos na presença de um ser vivo, momentos antes de se transformar em frio, rígido ou flexível; mas ainda assim, transformado.
Diversidade de aplicações
Tanto as bobines como os lingotes poderão transformar-se em muitas partes de um Volkswagen, um Audi, um Peugeot, entre outras marcas que trabalham com a Thyssenkrupp. É muito interessante assistir à criação de tudo, a verdadeira origem do automóvel, onde os elementos se conjugam para formar outro, mais forte e ajustado.
Depois da fundição, o aço acabado também abastece outras empresas do grupo Thyssenkrupp que transformam este aço-base em produtos como portas, chassis, longarinas, árvores de cames, blocos de motor, chaparia, entre muitos outros elementos estruturais dos automóveis, camiões e máquinas de construção.
Cada aplicação exige uma adaptação da produção e dos materiais empregues. A forma do produto final é standard, mas a sua composição é adaptada a cada cliente. Aqui em Duisburg existe um trabalho muito grande para se conseguir chegar à formulação ótima para cada cliente em específico.
A dimensão desta unidade da Thyssenkrupp, assemelha-se praticamente ao de uma cidade (cerca de 10 km2) bem como a quantidade de veículos que circulam lá dentro. A produção é em grande parte automatizada, com pouca intervenção humana direta.

Passado e futuro
Foi também possível visitar as fundações da futura fábrica de “aço livre de emissões”, que deverá utilizar o hidrogénio ao invés do carvão, para atingir a neutralidade carbónica; porém irá necessitar de três vezes mais eletricidade do que a que estão a utilizar agora. Será viável e competitiva, frente aos que espoliam o planeta em prol da ganância?
Os fornos-altos Schweigen 1 e 2, têm os seus nomes derivados do bairro que ali existiam. Também o forno mais recente, o vermelho, construído em 2007. Todos estão em operação desde a sua construção, tendo vindo a receber melhorias a cada ano.
A dinâmica e o funcionamento da fundição, valem por si só. Tudo tem uma certa ordem, uma cadência, uma organização meticulosamente pensada e testada. Não há gritos, nem correrias. Há um silêncio acolhedor e uma cadência natural, ordenada, e acima de tudo extremamente atenta. Fardamento, organização, complementaridade, simplificação e muita objetivação prática, funcional e fundamentalmente segura.
A revista Automotive e eu em particular, Eduardo Gaspar gostaríamos de deixar o nosso sincero agradecimento pela forma aberta, transparente e acolhedora como fomos recebidos pela Thyssenkrupp Steel Europe.
E também um agradecimento especial ao nosso “guia”Mark Stagge,que tão bem acolheu as nossa dúvidas e se esmerou nas explicações. De enfatizar que não se poupou em explicar as complexidades que esta indústria de base atravessa. Os modos obsessivos com a neutralidade carbónica, obrigarão a despedir trabalhadores, reestruturar o negócios, talvez a um ponto de não-retorno. Porque à semelhança de um Schwelgern, se for desligado por mais de 3 dias, nunca mais voltará a poder ser utilizado.



























