A possível iniciativa da Michelin de encomendar testes com pneus Leonard, marca de pneus da francesa Black Star (detida pelo grupo Mobivia), aumentou a tensão no mercado de pneus da França. Segundo o Journal du Pneumatique, a informação ainda circula como rumor no setor, mas ganhou força em meio ao debate sobre o socorro financeiro ao segmento de pneus renovados para veículos ligeiros. A Michelin não confirmou de forma objetiva se solicitou os ensaios.

Black Star está em recuperação judicial
A discussão ocorre depois de a Black Star, fabricante dos pneus Leonard, ter sido colocada em procedimento de salvaguarda em 28 de janeiro de 2026. A empresa, conhecida pela produção de pneus renovados para automóveis ligeiros, comerciais ligeiros e SUVs, estava a enfrentar dificuldades para equilibrar o seu modelo de negócio, pressionado pela concorrência de pneus novos de baixo custo asiáticos, e pelo quase inexistente investimento da Mobivia na promoção destes pneus ecológicos junto das frotas.
Recentemente o governo francês aprovou uma ajuda mínima de 6 euros por pneu renovado introduzido no mercado nacional, desde que a operação atenda a critérios definidos. A medida foi publicada no Journal Officiel em 27 de março de 2026 e transfere aos eco-organismos (entidades gestoras de pneus em fim de vida) do setor a obrigação de financiar parte da operação.
A medida dividiu o mercado. A Aliapur, um dos eco-organismos responsáveis pela gestão de pneus em fim de vida na França, contestou o mecanismo e levou o tema ao Conselho de Estado. A entidade argumenta que o novo apoio cria um custo estimado em cerca de € 15 milhões e questiona se os benefícios ambientais e económicos foram demonstrados de forma suficiente.

Debate envolve desempenho e transparência
O ponto mais sensível é que os pneus renovados para veículos ligeiros não seguem o mesmo sistema de rotulagem aplicado aos pneus novos na Europa. Isso significa que dados como resistência ao rolamento, ruído externo e aderência em piso molhado não aparecem para o consumidor da mesma forma que nos pneus novos. É nesse contexto que a eventual realização de testes independentes com pneus Leonard ganha relevância para a indústria.
Conforme a reportagem da Revista Automotive (edição nº127 de 2024), os pneus Leonard são produzidos em França na cidade de Béthune, numa antiga fábrica da Bridgestone. Verificamos que fabricação segue os regulamentos UNECE nº 108 e nº 109, referentes à homologação de pneus renovados para automóveis.
Caso a Michelin tenha solicitado os testes, a iniciativa pode ser lida menos como um ataque direto à Leonard e mais como uma tentativa de obter dados técnicos, num momento em que fabricantes, eco-organismos e autoridades discutem quem deve pagar pela manutenção de uma cadeia de pneus renovados para veículos ligeiros.
O episódio também demonstra que a renovação, embora associada à economia circular, ainda enfrenta uma questão central no mercado de veículos ligeiros: fazer com que as frotas, que tanto defendem a eco-sustentabilidade dos seus parques automóveis, utilizem pneus renovados com segurança.

Prioridade aos renovados
A Mobivia comprometeu-se, por um lado, a continuar a comercialização dos pneus Leonard e, por outro, a apoiar o futuro comprador. No entanto não parece oferecer garantias suficientes para uma manutenção das duas unidades de produção da Black Star em Saint-Pierre-de-Bœuf e Béthune, nem dos seus 150 trabalhadores.
Se vários sinais, como: a ajuda sobre as carcaças tão criticada; a futura taxa antidumping sobre produtos fabricados na China; a aplicação mais rigorosa da lei que obriga os serviços públicos a equiparem prioritariamente as suas frotas de veículos com pneus renovados; constituem boas notícias para a Black Star, a contagem decrescente já começou.
Esta é uma situação difícil de viver para as equipas que a Revista Automotive conheceu em Béthune: alguns são colaboradores há 20 anos e estão, naturalmente, afetados. Nesta fábrica, cerca de quarenta destes trabalhadores já faziam parte das equipas da Bridgestone e sofreram com o anterior encerramento da fábrica. É uma penalização e um trauma que volta a acontecer.
A 1 de junho, o administrador judicial entregará oficialmente as propostas e cada potencial comprador poderá, nos dias seguintes, defender o seu projeto. Depois disso, o tribunal decidirá.
Esperemos que a decisão beneficie os funcionários e suas famílias; assim como, traga eficiência, justiça e compromisso, para com as pessoas e o ambiente.




























